Exploração sexual e tráfico de mulheres e crianças: dois problemas que existem e precisam ser combatidos!

Dia 23 de setembro é o Dia Internacional Contra a Exploração Sexual e o Tráfico de Mulheres e Crianças. A data surgiu em 1913, após a criação de uma lei na Argentina de combate ao tráfico internacional de pessoas. Apesar de pouco discutido, o problema do tráfico de mulheres e crianças é real e precisa ser combatido. Neste artigo, quero provocar uma inquietação a respeito do assunto. Por isso, vou começar apresentando alguns dados que revelam a gravidade do cenário atual e, em seguida, vou falar sobre os motivos que explicam a incidência maior de vítimas mulheres e crianças. Ao final, vou propor algumas ações que podemos fazer para ajudar nesse combate. O que é e como acontece a exploração sexual e o tráfico de mulheres e crianças? A exploração sexual e o tráfico de pessoas são dois assuntos distintos, mas que se relacionam entre si. No Brasil, vivemos estes dois problemas em larga escala, mas pouco se fala sobre o assunto. Temos que aproveitar datas como esta para fomentar as discussões e buscar alternativas que ajudem a minimizar o problema. A seguir, trouxe algumas definições e dados estatísticos para compreendermos melhor o cenário atual de ambos as questões. O que é a exploração sexual de mulheres e crianças? A exploração sexual acontece quando uma pessoa é obrigada por um terceiro a realizar ou manter relações sexuais com outras pessoas e troca de algo, geralmente dinheiro. Na grande maioria dos casos, são mulheres (cis ou trans) e crianças, que precisam se sujeitar à prostituição para pagamento de dívidas e “garantia de segurança” da família. De acordo com o balanço do Disque Denúncia, foram registrados mais de 17 mil casos de exploração sexual de crianças e adolescentes em 2019. Em 73% dos casos, o abuso acontece dentro de casa, em 87% dos casos por um homem e em 48%, o abusador era o pai, padrasto ou um conhecido da vítima. Nas idades entre 10 e 19 anos, em mais de 90% dos casos a vítima é do sexo feminino. Estamos falando de meninas que não estão seguras dentro de suas próprias casas, cercadas de pessoas conhecidas e que deveriam ser de ser sua inteira confiança. No infográfico abaixo, criado pelo O Globo, vemos algumas estatísticas alarmantes: O que é tráfico de pessoas? O tráfico humano é o comércio de pessoas para diferentes finalidades. As mais frequentes atualmente são a exploração sexual, a exploração de mão de obra com trabalhos análogos ao escravo e a retirada de órgãos. As principais vítimas do tráfico internacional, de acordo com a ONU, são mulheres ou meninas, representando 70%, e quase ⅓ são crianças. Veja esse gráfico do site Politize que explica muito bem como acontece o tráfico humano: Por que mulheres e crianças são o maior alvo? Tanto no que diz respeito à exploração sexual quanto ao tráfico internacional de pessoas, as mulheres e crianças são os principais alvos das quadrilhas. A forma como a nossa sociedade foi estruturada tem muita relação com isso, como eu explico melhor nos tópicos abaixo. Objetificação O machismo, que faz parte da estrutura da sociedade atual, tem como uma das principais características a objetificação da mulher. Ela é vista como um objeto que pode ser vendido e usado pelos homens conforme seus desejos e necessidades, entre elas a sexual. A prostituição é um negócio altamente lucrativo e os criminosos que atuam nesse ramo aproveitam do machismo para manter uma cartela farta de clientes. Fragilidade física Mulheres e crianças têm um histórico de fragilidade física em relação aos homens adultos por diversos fatores. As crianças são facilmente vencidas pela força bruta, muitas quadrilhas agem no sequestro de recém-nascidos, ou de crianças muito pequenas. Em alguns casos, as próprias famílias são coagidas a venderem seus filhos, seja para o pagamento de dívidas, seja para obter proteção dos malfeitores. No caso das mulheres adultas, é bastante comum que elas sejam enganadas com promessas de emprego no exterior. A articulação dos recrutadores é impecável, cheia de amarrações que convencem a vítima a embarcar no esquema. Quando descobrem o golpe, já é tarde demais e a força bruta se torna uma das armas para a retenção dessas mulheres na condição de escravizadas. Incredulidade Muitas pessoas ainda não acreditam que esses problemas existam. Outras até acreditam, mas acham que isso só acontece longe delas, o que não é verdade. Eu costumo dizer que todo mundo conhece ao menos um agressor ou abusador. Foram 17 mil crianças e adolescentes vítimas registradas em 2019. Entre os anos de 2012 e 2014 a ONU registrou mais de 63 mil vítimas de tráfico humano. Só no Brasil, foram identificadas mais de 240 rotas nacionais e internacionais. Estamos falando de um problema real. Imagine quantos casos ainda acontecem no anonimato, bem embaixo dos nossos narizes? Impunidade Tudo isso só acontece, e cresce cada dia mais, porque as leis acerca da exploração sexual e tráfico de mulheres e crianças não contam com rigor suficiente, além de não estarem sendo devidamente cumpridas. A incredulidade piora a situação, já que ajuda a ocultar os crimes e a evitar o levantamento de suspeitas por pessoas que poderiam denunciar às autoridades. O que podemos fazer? O primeiro ponto importante é aceitar que o problema existe e se informar sobre ele. Em ambos os contextos, os criminosos se valem dessa falta de conhecimentos da população para praticarem seus atos. No caso do tráfico internacional, o aliciamento costuma vir disfarçado de proposta de trabalho. Por isso, desconfie de ofertas de ganhos muito altos e benefícios muito vantajosos. Já em relação à exploração sexual, principalmente de crianças e adolescentes, é fundamental ter atenção aos detalhes. Mudanças de comportamento repentinas, recusa da criança em frequentar determinado ambiente ou de permanecer na presença de uma pessoa específica podem ser sinais de alerta. Antes que algo aconteça, converse com seus filhos, explique que ninguém pode tocá-los sem a permissão deles e, o mais importante, mantenha um diálogo constante. A exploração sexual e o tráfico de mulheres e crianças é um
Diálogos possíveis: construindo pontes para uma sociedade melhor

O diálogo é algo que está presente em praticamente tudo o que faço. Como psicóloga, ele me acompanha durante os atendimentos, na escuta aos pacientes. Como empreendedora, ele me ajuda a resolver questões junto a parceiros, fornecedores e clientes. Na vida pessoal, ele também está lá, permitindo que eu cuide da minha relação com meus familiares e amigos. A conversa entre duas ou mais pessoas tende a ser ainda mais rica quando os envolvidos têm posições opostas sobre determinado assunto, quando cada ponto de vista enxerga uma solução diferente para o mesmo problema. Ora, se o problema é o mesmo, por que não podemos pensar juntos na solução? Por que brigar, se podemos dialogar? Neste artigo, quero contar para vocês uma das ideias que consegui tirar do papel: o painel Diálogos Possíveis. Ele tem como objetivo juntar atores da sociedade que sejam diversos para a discussão de temas mais delicados, considerados tabu, mas que precisam ser tratados. O surgimento da ideia A ideia do Diálogos Possíveis não surgiu da noite para o dia. Ao longo de toda a minha trajetória de vida, eu tenho observado como a sociedade, muitas vezes, caminha para situações conflituosas, que não precisariam chegar a pontos tão extremos se o diálogo fosse trabalhado. Dentre todos os exemplos, o que mais chamou minha atenção e provocou em mim a necessidade de fazer algo, foi a divisão política que se estabeleceu no país, desde o processo de impeachment da Dilma. Foram meses de pessoas se afastando umas das outras em prol de uma posição política. De lá para cá, o extremismo parece ter contaminado todos os demais assuntos que possamos discutir, e as pessoas começaram a agir cegamente em defesa de seus pontos de vista. Tudo bem defender aquilo que você acredita, isso é muito rico. O problema é fazer isso a qualquer custo e sem ouvir o ponto de vista do outro. O diálogo não é uma queda de braço onde um lado precisa vencer e o outro perder. Muito pelo contrário, o diálogo é uma conversa onde o principal objetivo é a troca de conhecimento e isso faz com que todos saiam ganhando. Foi quando pensei: “e se houvesse um espaço para que pessoas, com diferentes pontos de vista, pudessem conversar sobre os assuntos considerados tabus pela sociedade?”. Surgiu, então, o “Diálogos Possíveis”, um painel de discussão no qual pessoas diversas falam sobre temas mais sensíveis, em busca de um diálogo enriquecedor a todos. A formatação do painel Diálogos Possíveis O painel Diálogos Possíveis aborda um tema diferente a cada edição. O tema do primeiro painel foi “quais as formas de diálogos saudáveis entre a Polícia Militar e a Sociedade Civil?”, que foi inspirado na questão da violência policial, assunto que ganhou destaque no país após casos como da morte de jovens no final de um baile funk em Paraisópolis e da mulher de Barueri que foi imobilizada de forma bruta por um policial que pisou em seu pescoço. Nele, participaram representantes da Polícia Militar, do Ministério Público do estado de São Paulo, do Instituto Sou da Paz e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Foi uma experiência incrível, onde pudemos conhecer os pontos de vista de diferentes parte envolvidas e discutir, de forma muito saudável, os desejos e necessidades que existem em comum entre a Polícia Militar e a sociedade civil. Na data em que escrevo este artigo, estamos indo para a segunda edição, que vai abordar a temática da saúde mental, em função do mês de setembro ser dedicado a essa temática. A cada painel, um novo tema e uma nova banca, sempre pensando em trazer a diversidade para que a discussão envolva diferentes pontos de vista. O legado que pretendo deixar O painel Diálogos Possíveis foi criado para mostrar que qualquer assunto não só pode como deve ser discutido de forma saudável e produtiva. Em meus canais, eu busco sempre implementar essa dinâmica do diálogo, onde praticamos a escuta ativa e o respeito à opinião do outro. Você também pode fazer isso em seu dia a dia, tornar mais diálogos possíveis. O diálogo deve ser visto como uma oportunidade de encontrar pontos em comum entre as partes, aquilo que ambas desejam ou precisam. O conflito é a expressão de uma necessidade de cada um e não depende de quem está envolvido convencer o outro para ser resolvido. O meio pacífico é muito mais vantajoso, já que permite o nosso crescimento e evolução como seres humanos. Ouvir o outro com atenção e interesse durante uma conversa pode te ajudar a compreender melhor um ponto de vista diferente do seu. Não é preciso que concorde com o que a outra pessoa está dizendo, mas fica mais fácil estabelecer o diálogo quando você entende o que está sendo dito e consegue usar argumentos mais compreensíveis. Todos saem ganhando quando se dispõem a dialogar, por isso eu te convido a pensar nos diálogos possíveis em sua rede de convívio. Leve essa ideia de conversa para os seu dia a dia, busque novas formas de expor suas opiniões e ouvir as opiniões alheias. Esteja mais aberto ou aberta ao diálogo. Você pode se surpreender com o resultado! Se você gostou deste artigo e quer saber quando será o próximo painel, não deixe de me acompanhar pelas redes sociais! Você me encontra no Instagram, Facebook e LinkedIn.
Impactos dos padrões da sociedade na saúde mental da população

O Brasil é um país de população bastante plural que poderia ter, nessa diversidade, um grande potencial. Na prática, o que vivemos é uma desigualdade imensa, baseada em padrões da sociedade que estão enraizados em nosso cotidiano. A melhor forma de combater esse padrões e trazer mais equidade para a sociedade é se informando, conhecendo a situação real e como isso impacta a vida das pessoas. Por isso, neste artigo, quero falar sobre esses padrões da sociedade, explicando cada um e os efeitos que eles provocam na população que não se enquadra em um ou mais deles. Por fim, vou falar sobre a relação de tudo isso com a saúde mental, explicando as consequências e, acima de tudo, a importância de ações preventivas. Padrões da sociedade atual A nossa sociedade está estruturada em padrões que definem como uma pessoa será vista pelas demais. Por mais que cada um tenha a sua história e que a realidade não seja nada do que o estereótipo prevê, cada um será previamente julgado por causa deles. Veja quais são esses padrões. Machismo O machismo é a premissa de que os homens são superiores às mulheres. Quem mais sofre com ele são as mulheres, desde a falta de acesso igualitário ao mercado de trabalho até a violência sexual e doméstica. Mas os homens também sofrem com o problema, pois precisam manter uma imagem forte e viril em tempo integral. Falando dessa forma, parece um pouco extremo, casos que vemos apenas ao longe, mas a verdade é que todos nós somos parte desse problema e precisamos nos atentar para nossas atitudes no dia a dia. Algumas das principais crenças do machismo são: a mulher é o sexo frágil, precisa ser “protegida” de tudo e de todos; a mulher é como um objeto de propriedade de seu pai, que passa a ser de seu esposo; a mulher deve obediência ao seu pai ou marido; o homem é o único provedor da casa e tem que dar conta disso sozinho; homem não chora ou mostra qualquer tipo de emoções ou sentimentos. Racismo O racismo é um sistema que envolve o sentimento de superioridade de uma etnia sobre a outra. É mais do que um simples preconceito com a cor da pele de uma pessoa, é uma construção de centenas de anos, como eu conto em meu e-book “Era uma Vez a Negritude”. Entre as principais crenças do racismo no Brasil, estão: negros e negras são TODOS pobres e periféricos; negros e negras são criminosos; negras são mulheres para se divertir; negros e negras servem apenas para trabalhos braçais e pesados; negros e negras são intelectualmente incapazes de progredir. LGBTfobia A LGBTfobia é o preconceito contra pessoas que se identifiquem com alguma das letras do movimento LGBTQI+, que são: lésbicas; gays; bissexuais; transexuais; travestis; intersexuais; pansexuais; queer; entre outros. Essas características dizem respeito à orientação sexual de cada um e/ou à identificação de gênero, que são duas coisas distintas. O padrão estabelecido pela sociedade é que a pessoa seja cis gênero (se identificar com o gênero de nascimento) e heterossexual (sentir-se atraído sexualmente por uma pessoa do sexo oposto). As crenças da LGBTfobia são: lésbicas são boas para satisfazer fetiches dos homens; gays são fanfarrões e libertinos; bissexuais não sabem o que querem da vida; cada um nasce homem ou mulher e deve aceitar isso; interessar-se por alguém do mesmo sexo é errado; as crianças podem ser influenciadas ao ver pessoas LGBTQI+; toda travesti é prostituta. Descaso com quem foge aos padrões Além desses padrões citados até aqui, existem vários outros que acabam afetando a vida de muita gente. As pessoas gordas, por exemplo, são vistas como lentas, preguiçosas e descuidadas com a própria saúde. Características que não refletem a realidade de todos os casos. Outro tipo de preconceito bastante recorrente acontece com as pessoas com deficiência. Elas são vistas como incapazes de desempenhar determinadas funções, principalmente nas empresas e acabam sendo direcionadas para cargos mais limitados. Efeitos das exigências sociais na vida da população Diante de todas essas exigências, quem não se encaixa nos padrões da sociedade acaba percebendo os efeitos em diferentes momentos do cotidiano. Abaixo, eu trago apenas alguns dos aspectos mais marcantes e presentes no dia a dia dessas pessoas. Limitação do acesso ao mercado de trabalho Em 2019, os homens ganharam 30% a mais do que as mulheres e preencheram mais de 56% dos postos de trabalho, mesmo as mulheres sendo a maioria da população, com 52% de representatividade, de acordo com dados do IBGE. Também com base nos dados do mesmo instituto, a população branca recebe 56,6% a mais do que a negra. Os cargos de serviços braçais e de menor exigência intelectual são ocupados majoritariamente pelos negros, enquanto cargos de liderança e profissões como arquitetura e engenharia são dominadas pelos brancos. Uma pesquisa divulgada no site Razões para Acreditar mostrou que 90% das travestis estão na prostituição por não conseguirem emprego no mercado formal, mesmo com bons currículos. Além disso, 33% das empresas afirmaram que não contratariam LGBT’s para cargos de chefia. Para cada grupo de cidadãos e cidadãs que não se enquadram em todos os padrões que a sociedade impõe, encontramos estatísticas que mostram os impactos disso no mercado de trabalho e, consequentemente, na fonte de renda dessas pessoas. Limitação de acesso a serviços básicos Com as limitações ao mercado de trabalho, essa população também tem seus poderes aquisitivos limitados, em muitos casos, recebendo menos que o suficiente para sustentar a si e sua família de forma digna. Diante disso, muitas coisas básicas passam a ser consideradas supérfluas, tais como o lazer e os cuidados preventivos com a saúde. Situação de vulnerabilidade social A falta de oportunidades gera problemas graves de renda para essa população, que se vê obrigada a sobreviver com muito pouco. Sem ter como arcar com um local decente para morar, nem uma alimentação saudável e demais elementos básicos de sobrevivência, elas entram em situação de vulnerabilidade social e passam a depender muito mais da ajuda do
Setembro amarelo: a importância do autocuidado na prevenção ao suicídio

O Setembro Amarelo é uma campanha de prevenção ao suicídio que vendo sendo realizada anualmente desde 2015 no mundo todo. Como psicóloga clínica e ciente da importância dos cuidados com a saúde mental das pessoas, não poderia deixar de fazer a minha parte. Por isso, resolvi escrever este artigo onde vou mostrar alguns dados preocupantes sobre as taxas de suicídio no Brasil, os principais fatores que influenciam o agravamento da situação e a importância do autocuidado como ferramenta de fortalecimento da autoestima e prevenção ao suicídio. Acompanhe. Dados importantes e impactantes sobre o suicídio O suicídio é um assunto que ainda é um tabu para muitas pessoas, mas só porque se evitar falar sobre ele que ele não aconteça. Inclusive, as estatísticas mais recentes sobre essa questão não são nada bons e todos precisamos conhecer e nos atentar. Veja a seguir. 1 morte a cada 45 minutos no Brasil, 1 a cada 40 segundos no mundo Todos os dia, 32 brasileiros e brasileiras chegam ao seu limite e tiram a própria vida. É uma morte a cada 45 minutos, que poderiam ser evitadas com a ajuda de ações preventivas diversas. No mundo, esse índice chega a 1 morte a cada 40 segundos. Um estudo da Unicamp revelou que 17% das pessoas no Brasil já pensaram, alguma vez, em cometer suicídio e, dessas, quase 5% chegaram a fazer planos a respeito disso. São pessoas que podem estar ao seu lado, no seio da sua família, em sua roda de amigos, e que não precisam chegar a esse extremo. Doenças mentais estão entre as principais motivações O suicídio é o ponto final de um processo que pode levar meses e até anos. Alguns dos transtornos mais comuns dos tempos atuais são também gatilhos para o cometimento de um suicídio. A depressão e a ansiedade são exemplos clássicos que, quando não tratados com a devida gravidade que têm, podem evoluir para algo pior. Fatores que estão por trás das estatísticas Os dados que apresentei no início do texto mostram a ponta do problema, mas as raízes são bastante profundas e é nelas que devemos focar. Pensando nisso, trouxe algumas reflexões importantes a serem feitas sobre o assunto. A sociedade está cada vez mais exigente A idealização de pessoas perfeitas parece coisa do nazismo, mas acontece todos os dias em nossa sociedade. Fomos educados desde muito novos sobre os padrões de beleza no modelo Barbie e Ken, na busca pelo enriquecimento como forma de aceitação e, o pior de tudo, a esconder nossos sentimentos negativos por debaixo de sorrisos amarelos. Por dentro, estamos em ruínas, mas a sociedade não quer saber como você está, ela apenas julga a forma como você se veste, o tamanho do seu corpo, a cor da sua pele e tudo o que estiver aparente. As mídias sociais podem ser muito cruéis Como se não bastasse conviver com todas essas exigências absurdas no mundo real, as rede sociais chegaram como uma ferramenta de disseminação do problema. Por um lado, temos aqueles que mostram um mundo feliz, onde tudo o que acontece é legal e ao mesmo tempo inalcançável para muitos. Por outro lado, temos as pessoas que estão carregadas de crueldade, que usam o ambiente virtual para atacar quem não é ou age da forma como elas julgam ser correta. Em lugar de criar diálogos, elas criam discórdias e alimentam a cultura do ódio. A pandemia só agravou o cenário A pandemia do novo coronavírus acabou agravando os problemas de saúde mental da população em decorrência de dois fatores principais. Primeiro, pela privação da liberdade, que fez com que as pessoas precisassem se manter isoladas, longe de quem elas amam e sem poder sair para espairecer ou praticar uma atividade física. Segundo, porque ela trouxe a preocupação constante com a saúde, algo que beira à neurose. A cada ida ao mercado, ao receber uma entrega, a cada interação com alguém, vem em mente uma chuva de perguntas: será que higienizei tudo corretamente? será que encostei em algum lugar e não vi? será que trouxe o vírus para dentro da minha casa? Enfim, tudo isso combinado traz ingredientes suficientes para ligar o sinal de alerta para inúmeras condições mentais que podem evoluir para uma tentativa de suicídio. Autocuidado como ferramenta de prevenção ao suicídio Como sou uma pessoa positiva e não gosto de focar no problema, mas sim na solução, quero falar sobre ações preventivas simples, que você pode implementar no seu cotidiano de forma fácil e natural. Fique atento aos menores sinais Como disse anteriormente, o suicídio é o ponto final de um processo, geralmente, bem longo. Isso significa que existem muitos sinais que podem ser percebidos a tempo de evitar o agravamento da situação. Basta ficar atento a eles. Ficar triste sem saber o porquê, ter pensamentos negativos com frequência, não se animar com possibilidades futuras, tudo isso são pequenos sinais que a nossa mente nos dá de que algo não vai bem. Por isso, observe-se mais, olhe com atenção para os seus sentimentos e busque compreendê-los. Não permita que a situação evolua Ter um dia ruim é normal, ficar triste durante vários dias, não. Logo que perceber os primeiros sinais, não deixe que eles evoluam e assumam o controle da sua vida. Tire o foco da negatividade e busque realizar atividades que te ajudem a virar essa chave e melhorar os seus dias. Distraia-se com algo que goste de fazer e não se cobre demais. Busque ajuda Em alguns casos, os sentimentos negativos já estão em um estágio mais avançado e a pessoa não tem forças suficientes para virar o jogo sozinha. Se esse é o seu caso, não se cobre, nem se sinta incapaz ou insuficiente. Saiba que você pode estar doente e precisa tratar essa doença para que ela não se agrave ainda mais. Um simples resfriado pode ser tratado em casa, mas, se ele evolui para uma pneumonia, será preciso buscar ajuda em um hospital. Um dia ruim acontece, mas, se ele evolui para
Uma história de Racismo Institucional no Esporte

Eu sou uma apaixonada por esportes. Sempre fui, desde muito nova. Hoje fui assistir uma partida da liga americana de basquete, nesse processo de retomada do mundo com a Pandemia da Covid-19 e me deparei com uma manifestação histórica. Antes de contar sobre o que me emocionou, começarei por outra história ainda dentro desse cenário esportivo. Já ouviu falar em Colin Kaepernick? Ele é um jogador de futebol americano da NFL (Liga Nacional profissional de futebol Americano). Ele foi selecionado pelo time San Francisco 49ers em 2011, passou sua primeira temporada na liga como jogador reserva. Em 2012, a combinação de passes precisos e muitas corridas dinâmicas, convenceram o treinador Jim Harbaugh a lhe dar uma chance no time inicial. Ele não decepcionou e levou seu time ao Super Bowl XLVII, em fevereiro de 2013 – quando caíram diante do Baltimore Ravens. Na temporada seguinte, ele de novo conduziu o time até a semi-final da liga, quando San Francisco perdeu para o Seattle Seahawks, que se sagraria campeão. Em 2014 e 2015, seu rendimento caiu bastante – apesar do time desmontado, técnico novo – ele também foi responsabilizado, pois seu estilo de jogo não era mais uma novidade e uma das coisas que AMO no futebol americano é a capacidade dos times se adaptarem aos jogadores estrelas rapidamente, e nesse contexto, somente alguns seguem brilhando. No ano seguinte, 2016, houve uma sequência de assassinatos de negros, vítimas de violência de estado nos EUA e eclodiram protestos por todo país: Black Lives Matter. Em um jogo de pré-temporada, era agosto de 2016, Kaepernick abaixou-se durante o hino nacional e se recusou a cantá-lo e após o jogo explicou: “Não vou me levantar e mostrar orgulho pela bandeira de um país que oprime o povo negro”. As ações de Colin Kaepernick inspirararam outros jogadores, em esportes diferentes, como Stephen Curry e Carmelo Antony (NBA), a se ajoelharem durante o hino. O então presidente Barack Obama, primeiro negro a ocupar esse cargo nos EUA, endossou o gesto. O que você acha que acontece quando um negro ousa desafiar o sistema de racismo institucional em um país capitalista como os EUA? Seu time rescindiu contrato, alegando baixo rendimento. Apesar da ligar ter naquele momento, outros jogadores, na mesma posição com produção igual ou inferior a dele, inclusive nos anos seguintes. Os comentaristas brancos diziam que ele não tinha talento para a NFL. Os milionários brancos donos das franquias lhe fecharam as portas. Colin nunca mais se recolocou na NFL e chegou a processá-la em outubro de 2017, alegando perseguição da entidade depois de receber inúmeras negativas de equipes que o chamavam para treinos, mas nunca ofertavam um contrato. Lembro de ouvir de uma das minhas maiores inspirações que a transformação social é para os corajosos. O mundo sempre precisa de quem, mesmo com consequências duras e injustas, queira continuar lutando pelo que acredita, pelo que é certo para si e para os outros. Isso não é feito por uma obrigação e sim por ideal. Quem tem ideal, compreende o que eu estou falando. Colin seguiu lutando. Ele não voltou a exercer sua profissão. Veja bem, ele não queria voltar a jogar por dinheiro e sim pelo direito de ser atleta, mas ao escolher ajoelhar por Vidas Negras, teve a sua história completamente mudada. Hoje, ao ligar a TV e ver escrito em todas as quadras da Liga, na camiseta de todos os jogadores “Black Lives Matter” e em todas as partidas, os jogadores iniciarem ajoelhados, eu me emocionei e disse para mim mesma: você quer mudar o mundo? Vai dar bastante trabalho, provavelmente demorará MUITOOOO, mas pode valer a pena. Parafraseando o jogador do Los Angeles Lakers Lebron James, espero que Colin esteja orgulhoso do que fez, pois ele permaneceu ajoelhado, quando essa ação custou tudo para ele. Obrigada a todxs corajosxs que já cruzaram meu caminho e me inspiram a seguir em frente!
8 mulheres pretas inspiradoras para você seguir

Estamos no mês de celebração das mulheres pretas e eu não poderia deixar de homenagear exemplos que me inspiram como mulher e como preta. A nossa luta diária é pesada, temos que lidar com o machismo e com o racismo ao mesmo tempo, tememos por nós, por nossos filhos e por nossos entes queridos. Mas também somos exemplo de força, de coragem e de determinação. Inspirar-se em outras pessoas nos ajuda a enxergar possibilidades que antes não víamos, a perceber que não estamos sós e que somos capazes de muita coisa que a sociedade nos diz que não. Por isso, resolvi trazer essas 8 mulheres pretas inspiradoras para você conhecer, seguir e se encantar. 1. MC Soffia Tão jovem e tão sábia. Mc Soffia, que hoje tem apenas 16 anos, é rapper e ativista da luta feminista e antirracista. Nascida em uma família envolvida na militância negra, desde muito pequena ela se interessou pela arte, em especial pelo hip hop, como forma de expressar suas ideias e seus protestos. Com apenas 12 anos, se apresentou ao lado de Karol Conká, na abertura dos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016. As suas composições enaltecem a beleza da negritude, sua força e sua luta. O grande objetivo de Mc Soffia é mostrar para as meninas negras o quanto elas são lindas e devem se aceitar e se amar, bem do jeito que são. Seu primeiro grande sucesso veio ainda aos 12 anos, com a música Menina Pretinha, que discute a falta de representatividade em bonecas para crianças pretas. Em junho deste ano, ela lançou a música Raízes, que trata dos cabelos como símbolo de força e resistência dos negros. No mesmo mês, ocupou o perfil da cantora Luísa Sonza, no Instagram, por 7 dias, como parte das ações de protestos pelo movimento Black Lives Matter. Nessa ocupação ela conseguiu levar a mais pessoas brancas diversas temáticas da luta antirracista. Tudo isso, com apenas 16 anos de idade! Não deixe de segui-la no @mcsoffia. 2. Janete Costa Falar da minha mãe é algo muito especial. Mulher forte e determinada: teóloga por paixão, tecnológa de formação e gestora do conhecimento por curiosidade. Aliás ela fez 5 pós-graduações e 240 cursos livres. Isso mesmo: 240 CURSOS LIVRES. Ela é assim! Uma pesquisadora nata. Diagnosticada com diabetes aos 14 anos, decidiu que viveria bem e de forma saudável, sempre com uma alimentação natural. Tornou-se uma cozinheira de mão cheia e decidiu, junto com minha irmã, abrir a @freesoulfood que busca mostrar à todos os benefícios de comer bem. A minha mãe me inspira, é meu maior exemplo. Uma das coisas que mais admiro nela foi ter criado a mim e a minha irmã de maneira muito empoderada, o que fez toda a diferença na construção das mulheres que somos hoje. Mãe, eu te amo profundamente e incondicionalmente. Comece a seguir minha mãe pelo @janetenanet ou pelo @freesoulfood e você vai entender toda a minha admiração! 3. Cida Bento Maria Aparecida Bento, ou Cida Bento, é Doutora em Psicologia pela USP, co fundadora do CEERT — Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdades e colunista no Jornal Folha de São Paulo. Seu trabalho tem um impacto tão grande que, em 2015, entrou para a lista das 50 pessoas mais influentes do mundo em Diversidade, pela revista The Economist. Em sua tese de Doutorado, ela aborda o pacto narcísico da branquitude, onde desperta nossos olhares para a forma como a branquitude construiu meios de resguardar seus privilégios, fazendos das demais etnias, sobretudo os negros, seres inferiorizados. Sua obra e ações são imprescindíveis para a luta antirracista. Acompanhe seu trabalho na coluna da Folha de São Paulo e pelo Instagram do CEET @ceert. 4. Tia Má A jornalista, humorista, influencer e, agora, escritora Maíra Azevedo é sinônimo de alegria e alto astral, mesmo tratando sempre de assuntos muito sérios, como o racismo, o machismo e a gordofobia. Grávida de seu segundo filho, Tia Má acaba de lançar seu livro: “Como se livrar de um relacionamento ordinário”. Ela é um exemplo de mulher forte, determinada e amada. Suas postagens nas redes sociais estão sempre trazendo inquietações sobre a forma como a sociedade trata a nós, negras, mulheres e gordas. Com seu humor ácido, ela dá seu recado sem perder o sorriso no rosto. Confira e acompanhe a Tia Má pelo @tiamaoficial. 5. Luanna Teófilo Luanna Teófilo, ou Linda Marxs, como gosta de ser chamada, tem um currículo bem extenso. Já viajou por 3 meses pela Europa, morou na Argentina e na França, mas foi de volta ao Brasil que as coisas começaram a tomar um rumo. Depois de passar por uma experiência de racismo em uma grande empresa, decidiu que era o momento de se dedicar aos projetos que já desenvolvia em paralelo. Ela já tinha um blog voltado para questões raciais e de gênero, o Efigênias, sua própria startup de desenvolvimento de negócios, a Doorbell Ventures e um e-commerce especializado no público negro, o BAP Store. Foi quando resolveu criar o Painel BAP, uma plataforma de pesquisa de mercado específica para o público negro. É tanta coisa a se falar da Linda, que não caberia aqui, nessa singela homenagem. O mais importante é que ela é uma força na luta feminista e, principalmente, antirracista. Fomentando discussões nas redes e desenvolvendo negócios que fortalecem a economia dos pretos. Eu tenho a grande honra de chamá-la de amiga e sou muito grata por nossos caminhos terem se cruzado. Não deixe de segui-la pelo @lindamarxs e no @painelbap. 6. Mafoane Odara Mafoane Odara é gerente do Instituto Avon e está à frente da área de enfrentamento à violência contra mulheres e meninas. Além disso, segue envolvida em várias iniciativas que combatem a discriminação racial e de gênero. Filha de ativistas, ela sempre entendeu a importância da luta. Quando ainda era bebê, seus pais se mudaram com ela para Angola, onde ajudaram a reconstruir o país após uma guerra. Lá, teve seu primeiro contato com a cultura africana, na escola,
Julho das pretas 2020: confira as ações que você não pode perder!

No dia 25 de julho é comemorado o dia Internacional da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha e as celebrações acontecem ao longo de todo o mês. A agenda de ações do Instituto Odara está recheada de atividades que vão desde palestras e rodas de conversa até mesmo oficinas e apresentações culturais. Com tanta coisa boa, o mais difícil é escolher o que acompanhar! Pensando nisso, eu resolvi trazer algumas das pautas que têm mais a ver com o que tenho falado aqui no blog e nas minhas redes sociais para te ajudar a participar de forma ainda mais rica. Confira! Ações para acompanhar antes do dia 25 de julho Vou começar com algumas indicações de temas que serão apresentados ainda antes do dia 25 de julho. Ações realizadas no final de semana do dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha Antes de listar as indicações da agenda do evento promovido pelo Odara, quero deixar uma indicação extra que acabei encontrando pela hashtag #julhodaspretas2020 e que achei bastante interessante. Evento se chama Julho das Pretas e será promovido pelo Mulherio das Letras – Zilá Mamede e acontecerá nos dias 23, 24 e 25, com uma programação variada, que inclui sarau, rodas de conversa, entrevista, webinar, reunião do clube de leitura, lançamento de livros e exibição de filme. A iniciativa ainda vai contar com convidadas especiais, que irão abordar assuntos relevantes, dentro da temática proposta. As informações completas podem ser encontradas pelo Instagram do Mulherio das Letras Zilá Mamede @mulheriozila. Agora, vamos voltar à programação do julho das pretas 2020 do Odara! Ações dos últimos dias de julho O dia 25 marca a data mais importante do mês mas não o fim da programação. Veja o que ainda vai dar para curtir, mesmo depois do dia internacional da mulher negra latinoamericana e caribenha. As ações que eu participarei Por fim, eu não poderia deixar de falar sobre as ações que eu participarei neste mês, com foco no Julho das Pretas 2020, conto com a sua presença! Ufa! Vai ter conteúdo para o mês inteiro e muita coisa bacana para aprender e discutir. espero que tenha gostado das indicações e que o seu Julho seja muito proveitoso! E se você quer se aprofundar mais sobre os assuntos da negritude e fazer parte do movimento antirracista, não deixe de me acompanhar também pelo @oqeupossofazer.
Fakenews e o impacto nos nossos tempos

Na segunda, 27 de abril, às 21:58, a página Quebrando o tabu publicou no facebook um post sobre um erro de hashtag postada no twitter em apoio ao presidente do Brasil, chamando a atenção para o fato de que, supostamente, “70.000 pessoas” escreveram incorretamente a mesma palavra na manifestação de apoio. Isso poderia ter algumas explicações, inclusive uma delas, é a escolha dos apoiadores repostarem a hashtag com maior engajamento, mesmo escrita errada, para aumentar visibilidade – eu pensei e você também poderia pensar – se não estivéssemos na era das fake news, isso seria bem possível, mas hoje, levando em conta todo o contexto, pouco provável. Claro que já havia pensado sobre a problemática de se espalhar mentiras nas redes sociais e captar, através disso, um capital político, mas eu não entendia a profundidade e o real impacto dessa ação nos países, na política e na vida de cada um de nós. Eu também não entendia por que não recebi fake newsna época das últimas eleições presidenciais e porque várias pessoas que eu convivo também não haviam recebido. Eu tive contato com essas mentiras, quando uma colega, decidiu compartilhar algumas sobre a candidata à vice presidência, Manuela d´Ávila e eu fiz uma tentativa de mostrar notícias reais que combatiam aqueles fatos, mas a pessoa, por posicionamento político diferente do meu, não quis acreditar. Enfim, segui em frente, ainda pensando que muitas pessoas não acreditariam no que estava sendo mostrado ou dito. Eu fui extremamente inocente! Para mim, a questão principal de lidarmos com tempos de muitas fake News, é pensarmos no impacto, por exemplo, das eleições em 2018 para quem foi afetado por mentiras e escolheu votar branco ou nulo. Essas mentiras da era da pós verdade têm causado mudanças absurdas no mundo que conhecemos. Em uma conversa com uma amiga querida, cientista política e pesquisadora incrível, me indicou o documentário lançado pela Netflix Brasil no ano passado: Privacidade hackeada (The Great Hack). Nele vemos como os dados se tornaram mais importantes e relevantes que o petróleo, como a falta de privacidade no uso dos nossos dados explicam fatos políticos, econômicos e mudanças de grande impacto na nossa sociedade. Recomendo a quem ainda não assistiu para contribuir nas discussões sobre a sociedade atual e a necessidade de refletimos, seriamente, no que compartilhamos, e principalmente, como acessamos, recebemos e acreditamos nas informações que chegam até nós!
O que é e como participar do julho das pretas

Você já ouviu falar no Julho das Pretas? A iniciativa criada pelo Odara – Instituto da Mulher Negra, chega a sua 8ª edição, em 2020, com cada vez mais visibilidade em uma sociedade que ainda precisa aprender muito sobre a luta feminista e antirracista. Bora, então, conhecer esse projeto, como surgiu, quais são seus objetivos e, principalmente, como participar da edição deste ano. O que é o Julho das Pretas? Vou começar o nosso papo contando um pouco da história desse movimento, começando pelo Odara, passando pelos preceitos do Julho das Pretas e pelos destaque das edições anteriores. Acompanhe. Odara – Instituto da Mulher Negra O Odara é uma organização negra feminista que visa superar a discriminação e o preconceito sofrido pelas mulheres negras em nosso país por meio de ações que promovem a autonomia e a inclusão sociopolítica dessa população. A instituição conta com várias frentes de trabalho que impactam tanto os aspectos individuais e pessoais quanto os coletivos. As iniciativas são organizadas em programas nas seguintes temáticas: comunicação; direitos humanos; pesquisa e intercâmbio; saúde da mulher negra. Cada um deles está recheado de projetos e campanhas que ajudam a fortalecer a identidade da mulher negra, suas raízes, suas histórias e suas habilidades perante a sociedade. A escolha do mês de julho Antes de falar sobre os objetivos que regem o Julho das Pretas, acho importante trazer um pouco de contexto para a conversa. Dia 25 de julho é comemorado o dia Internacional da Mulher Negra Latino-americana e Caribenha. A data foi escolhida por ser o aniversário de morte de Tereza de Benguela, rainha de um importante quilombo onde hoje fica a fronteira do estado do Mato Grosso com a Bolívia. Benguela assumiu a liderança do quilombo após a morte de seu marido e implementou mudanças importantes para a resistência do lugar, por mais de 2 décadas. Foi sob sua gestão que a comunidade passou a contar com um parlamento para a tomada de decisões e a ter uma estrutura econômica mais robusta. O suficiente para que o quilombo contasse com armamento para a sua proteção. Em 1770, a coroa portuguesa conseguiu recapturar parte dos escravos, entre eles, Teresa, que foi decapitada e teve sua cabeça exposta em praça pública para servir de exemplo. Contudo, o quilombo foi reerguido por quilombolas que conseguiram escapar dessa investida, e o local foi finalmente desfeito apenas em 1795. Objetivos do Julho das Pretas Teresa de Benguela é fonte de inspiração, pois suas conquistas representam a força da mulher negra, que é exposta a desafios cotidianos e consegue, ainda assim, prosperar e trazer desenvolvimento para os seus. Vide as tantas e tantas mães de família, periféricas, que multiplicam pães e conseguem prover a formação escolar de seus filhos. O Julho das Pretas surgiu com o intuito de trazer luz para a questão da mulher preta frente à sociedade machista, misógina e cruel que temos hoje no Brasil. A ideia é ter um mês inteiro de pautas feministas e antirracistas, em diferente canais e tratando de diferentes temáticas específicos. Edições anteriores Nas edições anteriores, as ações não tinham todo esse apelo virtual que temos este ano. Eram promovidas palestras, rodas de conversa, oficinas e, no dia 25, uma marcha em prol do movimento feminista negro, em diferentes cidades do país. A riqueza de iniciativas precisou ser adaptada ao cenário de isolamento social, mas isso nem de longe enfraqueceu o Julho das Pretas. Pelo contrário, agora podemos alcançar mais pessoas, por meio da internet, e conquistar mais adeptos para a causa, que depende do engajamento de todos ao longo do ano inteiro. Como participar do Julho das Pretas? O Julho das Pretas é bastante amplo e não precisa se limitar à programação elaborada pelo Odara. Contudo, é importante prestigiar as ações do instituto para fortalecer a iniciativa como um todo. Veja algumas formas de participar. Inscreva-se para a Ocupação Virtual Se você é uma mulher negra e tem algo para contribuir com a comunidade, inscreva-se na Ocupação Virtual! Ela acontecerá no dia 25 e tem espaço para bastante gente. Você pode compor uma roda de conversa, trazer a sua arte para apresentá-la ao público, ensinar a fazer arte, enfim, uma infinidade de coisas. Ajude a divulgar o evento Se você não deseja participar como ocupante, você pode ajudar na divulgação do evento. Siga o Facebook e Instagram do Julho das Pretas, compartilhe as informações disponibilizadas lá com seus amigos e familiares. Ajude a fazer com que mais pessoas conheçam e prestigiem tanto a Ocupação Virtual quanto outros eventos relacionados à luta feminista negra. Prestigie a Ocupação Virtual Por fim, não se esqueça de assistir à Ocupação Virtual. Serão 24 horas de conteúdo, dos mais diversos tipos e gostos. Escolha aqueles que mais lhe interessam e participe das transmissões. Interaja com os ocupantes, enriqueça as discussões, ou, simplesmente, dê uma curtida. Cada pequeno detalhe faz bastante diferença para a causa. Agora que você já conhece o Julho das Pretas e sabe como fazer para colaborar, é hora de botar a mão na massa! Inscreva-se para a Ocupação Virtual, divulgue para todos e todas da sua rede de amigos e familiares e não se esqueça de acompanhar as atividades ao longo do mês. Juntas podemos muito mais! Aproveite que está aqui e me siga no Instagram, Facebook e LinkedIn. Lá eu estou sempre atualizando vocês sobre os eventos feministas e negros que estão para acontecer!
Ponto de Indignação

Foram semanas com diversas tensões raciais por conta das cruéis mortes de João Pedro e Miguel no Brasil e George Floyd e Breonna Taylor nos EUA, onde eclodiram manifestações no mundo todo. Lembrei de dois ensinamentos de uma grande amiga que problemas complexos exigem soluções complexas e se não considerarmos parte do problema, não seremos parte da solução. Bom, nesse caso somos todos parte do problema já que todos temos uma raça. Pouco antes de todos esses acontecimentos, eu acabara de assistir ao filme raça e redenção e achei inspiradora a história baseada em fatos reais em uma cidade no Sul dos EUA, onde, pouco tempo após a segregação, conseguiram promover a conciliação entre o extremo do racismo versus o ódio pela branquitude. Aliás, deixo como dica para pensarmos na naturalização de opressões e uma crença na impossibilidade de mudanças de atitudes ou posturas diante delas. Então decidi demorar um pouco mais para me posicionar porque primeiro ainda estava tocada por essa história real de conciliação entre partes historicamente inconciliáveis e após os fatos, tudo parecia desmoronar novamente. Segundo, por acreditar que devemos fazer no nosso tempo, respeitando nossos limites e ao se posicionar, fazer por uma escolha e não obrigação. Terceiro, por decidir lidar com injustiça da forma que eu normalmente lido, ou seja, pensando como possibilitar que situações extremamente dolorosas, como assassinatos de pessoas negras sejam ressignificados em um motivo de luta para evitar que a próxima família precise passar pelo mesmo sofrimento. Sempre entendi o quanto o racismo pode ser o “crime perfeito”, relembrando o prof. Kabengele que pontua como o racismo hierarquiza diversidades, além de impor que a pessoa que sofra com ele, tenha que sozinha superar todas as barreiras, internas e externas, para ser uma história única de superação e vitória, sem uma real compreensão dos custos desse caminho na saúde mental e física de cada um de nós. Você sabia que o Brasil é 1° país em ansiedade no mundo, o 5° em depressão e a terceira causa de morte externa é o suicídio, sendo que entre pessoas de 10 a 29 anos, 45% de jovens declarados pardos ou negros tem mais risco de suicidar-se do que brancos. No Brasil a cada 23 minutos um jovem negro é assassinado, a violência doméstica aumentou, nos últimos anos, em 54% para mulheres negras e diminuiu em 9,8% quando se tratam de mulheres brancas. Quando falamos sobre a polícia, apesar de negros serem 37% do efetivo total, temos 51,7% dos policiais mortos entre 2017 e 2018 eram negros. Em média, trabalhadores brancos recebem 75% a mais que pretos e pardos no Brasil e a maior diferença salarial, considerando homens e mulheres brancos e homens e mulheres negras, é o salário da mulher negra. Enfim, tenho lido várias publicações de pessoas brancas, incomodadas, por se perceberem imersas em universo de relações profissionais e pessoais somente com seus pares e realmente acredito que muitas pessoas não sabem como contribuir em uma mudança efetiva na sociedade. Ao mesmo tempo, diversas pessoas negras sentem-se cansadas por saberem de dados, estatísticas de um genocídio que vem desde o início da escravatura no Brasil. O fato é que nós, negros em sua maioria, sabemos desses números há muito tempo e tem pessoas que se deram conta dele nos últimos dias ou agora nesse texto. Não importa qual é o seu caso, mas se você está se perguntando o que pode fazer porque sentiu um ponto de indignação, entendendo que a maior parte das pessoas negras não vive ou se desenvolve acessando as mesmas oportunidades de educação, saúde, segurança e mercado de trabalho como todas as outras, deixo o pedido que compartilhe meu texto e me procure porque estou iniciando um projeto de promoção de igualdade racial. Existem inúmeras plataformas, não é mesmo?! Sim, eu sei! Quero fazer parcerias, mas também existem inúmeras dificuldades e eu decidi ser mais uma pessoa a contribuir na transformação que o Brasil precisa por me considerar como parte do problema. Convido você a fazer o mesmo!
