Negros no mercado de trabalho: precisamos falar sobre isso

O tema “diversidade nas empresas” está mais em alta que o dólar! Tenho certeza que você reparou que não só nas propagandas tem mais cores, mais culturas e mais comunidades. O Linkedin, a maior rede social profissional do mundo, está em polvorosa com o tema e já não existe vergonha em comentar em publicações de empresas que insistem em fechar os olhos para a questão “cadê os negros, os indígenas, as mulheres, os PDCs e a comunidade LGBTQIA+ nesse time?”. Ainda bem que, cada vez mais, não incluir, não fazer esforço para ter pessoas diversas na equipe é mal visto. O argumento de que não existem profissionais qualificados não cola mais, assim como o famoso “nenhuma pessoa diversa se inscreveu”. Inúmeras consultorias, que trabalham justamente para garantir a inclusão dessas pessoas, estão disponíveis no mercado para ajudar as empresas nesse quesito. Ainda no contexto, nos últimos anos, milhares de pessoas negras conseguiram ingressar na universidade por conta das cotas. Formadas, elas enfrentam ainda muitos desafios para ingressar e se manter no mercado formal de trabalho, por isso que sempre fico feliz quando vejo depoimentos daqueles que conseguiram uma oportunidade de mostrarem seu valor e garantir que a mobilidade social tão sonhada aconteça. Nem tudo são flores A dificuldade de grupos dominantes para abrir mão de privilégios construídos por séculos é imensa e muito perceptível para os grupos diversos acostumados a lidar com todo tipo de discriminação! Muitos, na tentativa de sair bem na fita, contratam pessoas desses grupos, mas ainda pensam na lógica dos séculos passados, e não conseguem ajudar esses colaboradores no crescimento de suas carreiras. A tentativa de manutenção de estruturas sociais passa pela falta de promoção, pelo pagamento de salários menores e também pela colocação daquele funcionário diverso, não por acaso, em situações vexatórias, como por exemplo, fazer o café para todos os outros colegas de equipe na mesma posição ou insistir em apelidos racistas, LGBTfóbicos ou capacitistas. Uma pesquisa realizada pelo Indeed em parceria com o Instituto Guetto com trabalhadores negros, revelou que 47,8% não têm um senso de pertencimento nas empresas em que trabalham ou trabalharam. Essa falta está diretamente ligada a discriminação racial. A modernização do racismo em uma tentativa desesperada para não abrir espaço para a diferença pode ser vista nessa sensação. O caso da base da pirâmide Fui procurar o caso de Luanna Teófilo, uma mulher preta que foi condenada a pagar 15 mil reais de indenização para uma empresa depois dela sofrer racismo, ter sido escoltada para fora da empresa aos gritos e denunciar a situação, e encontrei muitos outros! E a maioria foi contra mulheres negras. A consultoria Indique Uma Preta e a empresa de pesquisa Box1824 lançaram a pesquisa “Potências (in)visíveis: a realidade da mulher negra no mercado de trabalho”, que explica de forma muito detalhada o que mulheres negras enfrentam nos locais de trabalho. O levantamento, que é um dos maiores já feitos aqui no Brasil, mostra que, apesar da mulher negra representar a maior força de trabalho no país, segue sem representação igualitária no mundo corporativo. 51% das entrevistadas afirmaram que receber promoções foi difícil ou muito difícil nos últimos anos. 37% delas disseram estar insatisfeitas ou muito insatisfeitas com esse fator, e 54% das mulheres negras de classe CDE afirmam que o reconhecimento profissional é difícil ou muito difícil. A pesquisa mostrou também que 44% das mulheres ouvidas pela pesquisa se sentem inseguras para acreditar no seu potencial e trabalho, 42% temem se posicionar ou falar em espaços coletivos e 41% têm a qualidade de vida alterada (sono, ansiedade, bem estar). Por fim, 32% fazem alterações compulsórias sobre a estética para se adequar aos espaços de trabalho. Leia mais sobre o estudo aqui. Fico pensando o quanto deve incomodar ver uma mulher negra em posições estratégicas. Há a tentativa desesperada de destruir a autoestima daquela mulher que carrega na pele lutas de séculos e tirar seu brilho. No entanto, ao mesmo tempo que machuca, também as fazem ir atrás de redes de apoio para desenvolver mais formas de chegar onde merecem e sonharam! Não vamos retroceder!

Biles, Osaka e Liz…

Foto de capa: Liz Cambage, Simone Biles e Naomi Osaka debatem a importância da saúde mental no esporte. Fotos: Getty| Arte: Karoline Souza/CLAUDIA O esporte está na minha vida desde que eu nasci. Quando tinha 3 anos de idade, sentava no colo do meu pai e assistia futebol com ele. Minha mãe tentou me colocar em balé, jazz e ginástica olímpica na infância. Lembro da Copa do Mundo de 94, eu chorando de emoção com o tetra do Brasil. Na mesma época, me apaixonei por Michael Jordan e vi todos os títulos do Chicago Bulls da década de 90. Logo em seguida, surgiu o Guga e seus títulos de Roland Garros no tênis e as irmãs Williams, fortes e dominantes. Mais para frente, vibrei com Daiane dos Santos e seus saltos incríveis no tablado da ginástica. Enfim, a cada tempo, surgiu alguém para eu admirar. Detalhe, sempre algo em comum: todas e todos atletas! Mais velha, tentei jogar handebol e vôlei e descobri que tinha talento para apoiar o time e minhas colegas, mas não habilidades para ser uma atleta.Mudei várias vezes de equipe, tive crush em diversos jogadores e troquei de esporte favorito, mas o que nunca mudou foi como meu coração batia forte todas as vezes que assistia um atleta pela televisão. Acordei na madrugada da ginástica artística para ver a Simone Biles. Não sei se você que me lê é apaixonado por esportes, mas quando vejo grandes atletas, sobretudo mulheres, me sinto próxima, como se fôssemos colegas. Então, eu precisava acordar para apoiar a Simone. Ela é um fenômeno da ginástica. O que sempre me impressionou em Simone e, em todos esses atletas que citei, foi o amor e respeito pelo esporte. Todos eles me inspiraram durante a vida a não desistir. Existe esse grande aprendizado em relação ao esporte para mim: o fracasso, as perdas, as lesões, as vitórias, as alegrias. As emoções são caminhos de aprendizados e possibilidades. Hoje, quando Simone desistiu de competir, mesmo sem parecer estar lesionada, senti um misto de angústia e dúvida sobre esses aprendizados, inclusive pensei: ‘ela é a Simone Biles. Atletas não desistem’. Isso durou alguns segundos! Em seguida, lembrei da tenista japonesa-haitiana Naomi Osaka e da jogadora de basquete australiana Liz Cambage. O que elas têm em comum com Simone? Todas desistiram. Diante da pressão desse momento delicado que vivemos de pandemia, elas abriram mão de competir em prol de sua saúde mental. Eu sou psicóloga, então sei bem como esse acúmulo de pressão que vivemos na vida pode nos prejudicar. Ainda mais para atletas que não puderam se preparar adequadamente nesse período de pandemia, que antecedeu as Olimpíadas. Além disso, eles são expostas a uma pressão por resultados e uma boa relação com imprensa e fãs. Nada disso é simples ou fácil. Cada uma dessas atletas tem seus motivos para colocar sua saúde mental em primeiro lugar e, mais uma vez, o esporte me ensina a lidar com os enfrentamentos da vida. Elas não desistiram. Elas foram muito corajosas em reconhecer que se sentir vulnerável faz parte do nosso processo como ser humano, não há nada de vergonhoso ou ruim nisso. A psicologia leva tão a sério a saúde emocional como forma de aumentar e potencializar a performance de um atleta, que temos uma especialidade somente para o tema: a psicologia do esporte. A lógica é, quanto melhor e mais preparado você se sentir, melhor vai performar. Se o atleta sente ansiedade ou medo de falhar, vamos trabalhar com ele técnicas de respiração, vamos acompanhá-lo nos momentos de competição e traçar um plano para que ele mantenha o rendimento e supere suas dificuldades. A ginasta brasileira Rebeca Andrade teve três cirurgias no joelho. Lesões são um dos maiores medos dos atletas, mas ela mesmo já contou que sua psicóloga contribuiu bastante na sua recuperação. Nessa competição, notei que ela usa técnicas de respiração para manter foco. Canalizando essas frustrações da lesão para o bem, ela teve um resultado incrível: a segunda maior nota no individual geral, ou seja, se classificou como a segunda ginasta mais completa do mundo. Para mim, não há nada mais importante que estar bem física e emocionalmente. Como diz Viktor Frankl, psiquiatra fundador da logoterapia: “quem tem um por que, aguenta quase todo como”. Que nossa maior motivação seja sempre nós mesmos! Obrigada Simone, Naomi, Liz e tantos atletas que seguem nos inspirando diariamente dentro e fora do esporte.

Trabalho e saúde mental: cuidado com as armadilhas!

No texto “O que é Saúde Mental e por que ela é o termo da moda dentro da psicologia?”, que postei nos últimos dias, mostrei muito brevemente a relação da saúde mental com a qualidade de vida, bem-estar e, claro, com o mercado de trabalho. Conforme os chamados transtornos psicológicos têm atingido mais pessoas, sendo os mais conhecidos depressão e ansiedade, mais soluções têm sido criadas na tentativa de contenção. A experiência que possuímos em nosso ambiente de trabalho afeta diretamente a nossa saúde mental, isso é um fato, e com a pandemia, vimos muitas empresas passarem a oferecer terapia, meditação, ioga, rodas de conversa e mais para os colaboradores. A intenção é boa, reconheço, mas há uma linha tênue entre ajudar e sobrecarregar o funcionário, individualizando uma questão que é mais complexa do que parece. Afastamento por transtornos mentais e outros dados Com a chegada do covid-19, muitas pessoas conseguiram migrar para o home office. Infelizmente, outras tantas não conseguiram e precisaram continuar circulando e se expondo diariamente a um vírus mortal. Tanto para quem fica, quanto para quem sai, lidar com um cenário de incerteza, de medo e com a vida social comprometida é uma carga que pode afetar a forma como lidamos com estresse, mudanças, desafios, como desenvolvemos relações sociais e, por fim, trabalhamos de forma produtiva. 2020 foi o ano em que a concessão de auxílio doença e aposentadoria por invalidez devido a transtornos mentais bateu recorde! Segundo a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho, houve uma alta de 26% em relação a 2019, com 576,6 mil afastamentos. Entre eles, há maior incidência de afastamento por depressão e ansiedade. Assim como eu, você provavelmente escutou inúmeras reclamações de trabalhadores aflitos por não sentirem que existia uma separação entre vida pessoal e profissional. A hiperconexão tornou suas jornadas ainda mais exaustivas, mesmo em meio a questões relacionadas ao luto coletivo da atual crise sanitária. E para quem precisou continuar saindo de casa, a ideia de estar cada vez mais próximo da morte afetou toda a forma de ver a vida, além de muitos relatarem o medo constante de levar a doença para dentro de casa. A linha tênue da qual eu falei De acordo com um levantamento da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o brasileiro trabalha em média 8 horas por dia, o que representa 39,5 horas por semana. Para compararmos, a média global é de 36,8 horas por semana. Claro que isso mudou na pandemia para quem trabalha de casa por conta das questões que falamos no parágrafo anterior. Muitas empresas, na tentativa de manter a produtividade ou aumentar os lucros, passaram a oferecer atividades gratuitas ou a baixo custo que visam desenvolver soft skills e saúde mental. No entanto, muitas vezes a cobrança para se comparecer nesses espaços ou cumprir um número mínimo de horas de capacitação, que não raro acontecem fora do horário de trabalho, pode ser fonte de ansiedade para muitos. Por isso, fica o alerta: às vezes, ver um filme, fazer meditação e atividades para otimizar o tempo ou conversar sobre suas aflições pessoas, só vai fazer sentido para o colaborador se for feito em seu tempo e/ou com pessoas com quem ele tem outros tipos de relação, que não a profissional. Empregadores precisam ficar atentos a isso para não sobrecarregar funcionários que estão passando por algum tipo de questão envolvendo o tema. A intenção pode ser das melhores, mas em hipótese alguma diga que a pessoa não se esforçou para sair da depressão ou da ansiedade porque não se esforçou para participar das atividades que expandiram o horário de trabalho. Quando se torna uma obrigação, pode ter o efeito contrário do que você pensou inicialmente. Para finalizar, tem uma frase que eu não lembro onde ouvi ou vi, mas ficou gravada por aqui (quem souber, por gentileza, coloque nos comentários): a economia é recuperável, vidas não. Por isso, ao invés de tentar preencher a agenda com cada vez mais atividade, que tal verificar se as férias dos funcionários estão em dia? Que tal revisar horas de trabalho e se as equipes conseguem dar conta das demandas? É um trabalho necessário, que não deve ser feito de forma rasa. Um espaço respeitoso, inclusivo e que não invade a vida pessoal do funcionário pode dar mais resultado que inúmeras atividades “não obrigatórias”.

Por que somos tão preconceituosos com o outro?

No mês passado, Roberta, uma travesti de Recife, teve 40% do corpo queimado publicamente, mais especificamente em um ponto de ônibus no Cais de Santa Rita. Eu sempre me pergunto: de onde vem tanto ódio? A quem interessa lidar com essas pessoas apenas nas sombras, nas partes mais obscuras da internet e não aceitar vê-las na rua, existindo, trabalhando e tendo seus direitos garantidos e respeitados? Parte dessa comunidade recorre à prostituição para se manter viva. Te desafio a fazer o teste do pescoço, ou seja, olhar para os lados e ver quantas pessoas desse grupo social, que representa o T de uma sigla já conhecida, trabalham ou estudam com você. Com o resultado, percebemos que há ainda muito pelo o que lutar. Garantia de direitos fundamentais como acesso aos estudos e à saúde é urgente. Em junho, é comemorado mundialmente o Mês do Orgulho LGBTQIA+, mesmo assim, isso não protegeu essas pessoas da violência e não mobilizou a maioria dos políticos para criar leis realmente inclusivas. Nesse mesmo mês de luta, uma representante política, a qual não vou citar o nome, rejeitou a inclusão de mulheres trans nas políticas de combate à violência à mulher, no mesmo município. O Brasil continua sendo o que mais mata travestis e transexuais no mundo. Entre janeiro e agosto do ano passado foram assassinadas 129 pessoas trans no país, de acordo com a Associação Nacional de Transexuais, o que representa um aumento de 70% em relação a 2019. E aconteceu em 2021: Benny Briolly, a vereadora eleita mais votada de Niterói, teve que sair do país por conta de ameaças de morte! A vereadora eleita, repito, primeira mulher transexual eleita para a Câmara Municipal em Niterói, município do Rio de Janeiro, precisou sair do Brasil para proteger sua vida. Por que a política, em um país democrático, aceita certos grupos e finge aceitar outros? Por que não há inclusão e igualdade da população travesti e transexual no mercado de trabalho ou nas posições de decisão? Tivemos uma mudança, uma mulher transexual foi eleita com muitos votos, mas o que foi feito estruturalmente para mantê-la no local conquistado? Luta de ontem, luta de hoje Muito da intolerância e do ódio vem do desconhecimento, do estigma ou de algo que foi falado e tomado como verdade marcada em pedra, mas não precisa ser assim. Eu acredito que as pessoas podem mudar, refletir sobre assuntos considerados tabus e mudar suas percepções. No entanto, pensar positivo não é o suficiente, principalmente conhecendo a história de Marsha P. Johnson, uma vanguardista, ativista travesti pioneira na luta pelos direitos da comunidade LGBT, nos EUA. Ela foi também uma das líderes da revolta de Stonewall, que lutou contra o desprezo, a ridicularização e o ódio após uma batida policial truculenta em um bar da comunidade. Em vida, com sua energia contagiante, Marsha exigiu com suas companheiras reconhecimento econômico, jurídico e aceitação. Infelizmente, foi assassinada em 1992, também em um espaço público. Recomendo que você assista um documentário sobre ela na Netflix para entender mais sobre o assunto. É necessário o apoio das autoridades (já fiz um texto sobre como ocupar espaços políticos pode mudar as coisas), destruir o preconceito e o machismo, visto que, entre os agressores, homens são a maioria, com ações propositais e persistentes até que nenhuma mais seja morta por transfobia. É preciso ainda discutir mais sobre o racismo, garantir que leis sejam efetivamente cumpridas! Grande parte das mulheres travestis e transexuais assassinadas são negras, e isso não é por acaso. A luta deve ser coletiva por inclusão no mercado de trabalho, na política, no cinema, e onde mais essa comunidade quiser! Eu espero que se as pessoas se abram mais, se permitam questionar crenças e promover o respeito. No mais, sigam pessoas travestis e transexuais nas redes sociais, ouçam o que elas estão dizendo e compartilhe com familiares, amigos, para que eles possam se abrir também. Mas lembre-se, isso não é tudo! As eleições estão chegando e nós podemos escolher pessoas mais comprometidas com a mudança.

Não se posicionar também é se posicionar

Graças a muitas batalhas, hoje conseguimos viver em uma sociedade onde podemos nos posicionar, compartilhar histórias, fazer protestos, votar, ir e vir, entre outras ações. Temos uma Constituição que garante acesso à direitos fundamentais, como educação, propriedade, trabalho, moradia e saúde.  Claro que muitas vezes eles não chegam, ou pelo menos não a todas as pessoas, mas devemos reconhecer que estamos um pouco melhores do que no século passado nessas questões. Nossa vida é feita de escolhas, que são tomadas de forma consciente, ou não, considerando o cenário, as possibilidades e, claro, as consequências. Apesar do que eu citei no parágrafo acima, temos muito ainda para conquistar. Alguns exemplos Igualdade de gênero. Neste texto sobre o voto como nossa arma para mudar as coisas, eu compartilho brevemente o caminho que tivemos que fazer para ter direito ao voto, e dou destaque para a trajetória de mulheres, ressaltando os bons resultados que tivemos nas últimas eleições municipais. No entanto, ainda ganhamos menos no mercado de trabalho, e o cuidado com os outros, filhos, mais velhos e casa, ainda é exigido majoritariamente por nós. Também precisamos avançar nos cargos de liderança e nos mais altos escalões da política. Raça. É uma questão sensível neste país onde muitas pessoas ainda acreditam na democracia racial. No entanto, basta olharmos para espaços de poder como a política e grandes empresas para ver que ainda estamos um longe da igualdade. Do outro lado, olhando para os níveis de violência, a população negra é a que mais sofre. Em 11 anos, os níveis de homicídio das pessoas negras cresceu 11,5%, enquanto que o de outros grupos caiu 13%, segundo o Atlas da Violência de 2020. Dados tristes como esse podem ser observados em relação à violência doméstica, violência obstétrica, mortes por covid-19 e outras doenças, além da taxa de encarceramento da população. Classe. Esses dias eu vi que a concentração de terras aumentou na última década e, alinhado a isso, a produção de monoculturas, que usam toneladas de agrotóxicos. No ano da pandemia, onde milhares de pessoas perderam seus empregos e outras muitas começaram a passar fome ou viram sua situação de vulnerabilidade social se aprofundar, surgiram 11 bilionários no Brasil, reforçando a máxima da desigualdade econômica nesse país que é tão rico, mas onde poucos têm muito. Sobre os deveres Neste país de dimensões continentais, nem todas as pessoas são conscientes em relação aos três pontos que citei acima. Tem muito mais coisa para discutir, mas considero que conhecer esses três assuntos é um bom início para entender o funcionamento de estruturas e se posicionar contra elas para fazer parte da mudança. Chegamos até aqui porque as pessoas se posicionaram contra a escravidão, contra a monarquia, contra as regras sociais que diziam que mulheres deveriam ficar em casa cuidando dos filhos, contra o coronelialismo e outras muitas injustiças! Pensar em nosso devir, ou seja, nas próximas gerações, deve passar pelo o que queremos deixar para elas. O Brasil que queremos deixar para os nossos filhos terá fome? Desmatamento? Veneno no prato? Machismo e misoginia? A partir do entendimento, é necessário compartilhar! Lá em cima eu falei que nem todas as decisões são conscientes, porque tem muitas pessoas que não entendem o peso ou a importância de suas ações. Existe uma ignorância generalizada em certos setores que não pode ser individualizada, ou seja, não podemos também culpabilizar um indivíduo por uma estrutura construída ao longo de séculos. Para citar um último exemplo, quero falar do voto em branco. Conheço inúmeras pessoas que não votaram ou votaram em branco com o discurso de que aquilo não iria fazer diferença. Três anos depois, é difícil fingir que aqueles votos não importavam. Nossas ações importam! Nosso voto, nossa intervenção e posicionamento importam e fazem a diferença. Sempre que puder, tenha isso em mente e compartilhe com a sua família e amigos. Vamos juntos em busca de um mundo melhor.

O que é Saúde Mental e por que ela é o termo da moda dentro da psicologia?

Você deve ter observado o aumento do tema saúde mental na sua rede. Assim como o autocuidado, que falamos por aqui na semana passada (clique aqui para ler o texto completo), o assunto está entre os mais procurados, principalmente desde que a pandemia começou. O cenário de incerteza disparou gatilhos e dados do Google apontaram alta de 98% nas buscas sobre transtornos mentais em 2020, comparado à média de 10 anos anteriores, com destaque para as frases “como lidar com depressão” e “como lidar com a ansiedade”. É possível que você tenha notado ainda como nos meses de janeiro e setembro a saúde mental está sempre em alta, sendo abordada com frequência em programas de canais abertos da televisão, por artistas globais nas redes sociais e por governos em campanhas locais. O Janeiro Branco é o mês da saúde mental, enquanto que o Setembro Amarelo busca concientizar pessoas em relação ao suicídio. Esses meses são muito significativos, pois promovem campanhas de conscientização e quebram tabus que rondam pessoas que lidam com essas questões. Dificuldades no acesso à prioridade global de saúde Abordar esse tema não é adiável. Por conta de sua relevância, é considerada uma prioridade global de saúde, visto que a promoção de uma mente saudável acarreta na qualidade de vida e, consequentemente, no desenvolvimento econômico. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS), o percentual de pessoas com transtornos mentais em países de alta renda que não recebem tratamento adequado está entre 35% e 50%. Nos países de baixa e média renda, esse número fica entre 76% e 85%. Atualmente no mercado há inúmeras startups e aplicativos que exploram a saúde mental digital, com a proposta de diminuir os custos de terapias e aumentar o acesso. Você acredita que atualmente dá para fazer terapia via texto com terapeutas de carne e osso? Existem também aplicativos que usam inteligência artificial para terapia cognitivo-comportamental, onde pacientes conversam com um bot sobre suas aflições. Mas, afinal, o que é saúde mental? Ser mentalmente saudável, de acordo com a OMS, é ser capaz de desenvolver habilidades pessoais, lidar com estresse, mudanças e desafios, desenvolver relações sociais e trabalhar de forma produtiva, tudo isso com o bem-estar por perto. Dentro da psicologia o assunto está em alta por conta do aumento da demanda. Para citar um exemplo, a procura por atendimento psicológico durante o ano passado na rede municipal de São Paulo aumentou 116%. O Centro de Atenção Psicossocial (Caps), que atendia 24 mil pessoas em setembro de 2019, atendia, segundo a pesquisa, 52  mil pessoas em outubro de 2020. Na rede privada não foi diferente, como mostra essa matéria do G1. Como vimos, a resposta do mercado também aponta que a busca por soluções de problemas que são comuns a muitas pessoas é urgente. Mais e mais pessoas estão falando sobre isso, da mesma forma que as incertezas dos tempos de pandemia tem desencadeado transtornos mentais que já eram preocupantes. Acredito que para além do tratamento quando um paciente já chega com a questão, nós, enquanto profissionais da psicologia, devemos trabalhar na prevenção. Os governos, as escolas, as comunidades, e outros espaços, precisam falar mais sobre isso, visando promover bem-estar, seja no ambiente físico ou virtual. Para finalizar, indico a todos uma série de cartilhas sobre saúde mental que a Fiocruz preparou. Lá são abordadas formas de lidar com o tema no trabalho, pessoalmente, com as crianças. Os materiais falam ainda sobre luto, cuidados paliativos, suicídio, violência doméstica, migrações humanas e cuidados povos indígenas.

Autocuidado: cuide primeiro de você para depois olhar para o resto

O tema autocuidado tem crescido bastante nos últimos anos. Com certeza você notou a mudança nas novelas, nos influencers e nos papos de bar com as amigas. Se entrar no Instagram e colocar #autocuidado na busca, por exemplo, vai notar que existem diversos tipos, entre eles, autocuidado emocional, consciente, feminino, natural, materno, feminista, na quarentena, amoroso, físico, masculino, facial, íntimo, enfim! Muitos! O que vai errado com o autocuidado? Naturalmente, a indústria viu uma oportunidade de ganhar dinheiro em cima da temática também, por isso, não raro vemos propagandas (mais conhecidas como #publis) nas redes sociais apontando a solução para se sentir bem na compra impulsiva de produtos exóticos e, muitas vezes, inacessíveis. A promessa é que eles vão te colocar em uma lista seleta de pessoas, farão um milagre no seu corpo, vão mudar a sua vida e serão totalmente indispensáveis na sua casa. Uma pesquisa de 2018 feita pela empresa de análise preditiva IRI mostrou que esse mercado movimenta US$ 450 bilhões só nos Estados Unidos. Um outro estudo mais recente e nacional, do IBOPE, encomendada pela Bayer, mostrou que 84% dos entrevistados buscam ter uma rotina de autocuidado, mas apenas um terço deles consegue fazer isso de forma regular. Paralelo a isso, estamos cada vez mais viciados em telas, que, de forma geral, ainda distribuem uma imagem ilusória do que é saúde, bem-estar e equilíbrio. Os click baits, ou seja, títulos chamativos feitos com o objetivo de persuadir, nos encaminham para corpos irreais, práticas que só poderiam ser mantidas a longo prazo se não tivéssemos mais nada para fazer, entre outros. Para quem se nega a entrar nessa roda, sintomas de FOMO (Fear of Missing Out, ou, em tradução livre, medo de ficar de fora) podem surgir. Tudo isso casa com uma cultura de correria, de trabalhar até não poder mais, de buscar soluções rápidas para questões sérias ou simplesmente naturais, como ter espinhas. Questões culturais que perpetuam a desigualdade de gênero Mais pesquisas mostram que mulheres cuidam muito mais de outras pessoas. O machismo dentro dessa sociedade que ainda é majoritariamente patriarcal, nos coloca nesse lugar. É comum ouvir “se eu não faço, ninguém faz” ou “não tenho tempo para nada”. Mesmo fora do ambiente doméstico, em nossos trabalhos e empreendimentos somos maioria no setor de serviços e ainda poucas em cargos de alta liderança. (Você pode ler um pouco mais sobre isso aqui). Por meio do levantamento “Tempo de cuidar: o trabalho de cuidado não remunerado e mal pago e a crise global da desigualdade”, a Oxfam denunciou que mulheres e meninas ao redor do mundo dedicam 12,5 bilhões de horas por dia ao trabalho de cuidado não remunerado, ou seja, atividades como cuidar de outras pessoas, cozinhar, limpar, buscar água e lenha. Por conta dessas questões, muitas mulheres se culpam por se autocuidar, ou são taxadas de egoístas por quererem tirar um tempo para si. Mas, precisamos todos entender que o autocuidado é cuidar do outro também. Na minha opinião o motivo do autocuidado deve ser individual, mas pensando de forma mais ampla, todos se beneficiam. Dicas finais para começar o autocuidado hoje Não quero aqui ser simplista nas dicas. Como vimos, apenas um terço das pessoas consegue desenvolver a prática. Por isso, sugiro começar com pequenos hábitos. Pequenos mesmo, como por exemplo, antes de cortar as unhas, fazer uma imersão breve de cinco minutos em uma água com camomila. Ou então tentar dormir uma hora mais cedo, ou então, tomar três respirações profundas toda vez que perceber que está com algum tipo de ansiedade. Saber desligar da tecnologia é essencial para nossos estados de ânimo, assim como o contato com a natureza e a observação de nossa saúde mental. Por fim, autocuidado é diferente de aparência física. É um ritual de autopreservação em um caminho longo e nem sempre fácil. É um carinho para você, um espaço vitalício de cura e conexão. Vale dizer que muitas soluções para promover bem-estar e a saúde podem ser encontradas na natureza ou com valores acessíveis em mercados, casas de ervas, vizinhas ou pessoas mais velhas da sua própria família. Autocuidado não deve ser limitado a skin care, dietas restritivas, procedimentos estéticos, gurus ou exercícios excessivos. Práticas de cultivo desses dois pontos bases para o autocuidado podem ser feitas no dia a dia, sem necessariamente envolver relações comerciais.

Por que as mulheres devem se unir e batalhar pelos seus direitos?

No meu último texto, falei sobre o poder do voto para mudar cenários cristalizados por séculos. Quis fechar a nossa conversa indicando um texto sobre machismo, misoginia e sexismo que fiz em novembro do ano passado. O conteúdo faz todo sentido e foi baseado em pesquisas e experiências pessoais, não só minhas como de mulheres que conheço. No entanto, o comentário de um homem ao que foi escrito só me mostrou o quanto a luta por direitos e as ações para quebrar o preconceito de gênero ainda são indispensáveis. Basicamente, o senhor defendeu abertamente que mulheres deveriam ficar em casa cuidando dos filhos. Infelizmente, ainda temos que lidar pessoalmente e no mundo virtual com comentários do tipo, além de olhares de reprovação às mulheres que decidem fazer carreira ao invés de perseguir o ideal de dona de casa que dá conta de tudo sem reclamar, pelo contrário, com um amor infinito no coração. A mulher que ousa dizer que não é frágil e não necessariamente precisa de um homem, é frequentemente tida como irracional. E o que dizer das corajosas que vão contra os padrões de beleza? Estrutura filmada e reproduzida Esses dias, estava conversando com uma amiga sobre como mesmo em séries progessistas ou naquelas que deveriam oferecer algum tipo de lazer, a narrativa de mulheres que têm tudo para ser bem sucedidas e resolvidas, acaba girando em torno de uma pessoa do sexo oposto. Sempre tem aquela mulher que larga o emprego dos sonhos para que o marido siga seu sonho em uma outra cidade com ela ao lado, dando todo tipo de apoio. Tem também aquela protagonista que recebe a notícia com a qual ela sonhou a vida toda, mas não consegue se alegrar por causa de uma mera discussão que teve mais cedo com o namorado. Pode parecer paranóico ou dramático demais, eu sei! Mas quando a gente para e pensa sobre os condicionamentos desde o berço, é comum nos sentirmos frustradas ou previsíveis demais. Mas eu sou a favor da mulher ser dona de suas escolhas, de ter consciência das estruturas e poder escolher o que é melhor para si, sem se preocupar com julgamentos alheios, apelidos ou ataques. O que eu pretendo aqui é provocar, é promover essa discussão que fala cada vez mais alto “nós, mulheres, podemos”. Não quer ser dona de casa? Tudo bem! Quer ser? Tudo bem também. Quer ter uma carreira brilhante e se casar mais tarde ou não casar? A escolha deve ser sua. Quer ter filhos ou não? São escolhas também. É o seu direito escolher o que é melhor para a sua vida. Alguns dados para apoiar nossas ações O quinto de 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), “Igualdade de Gênero”, busca acabar com todas as formas de discriminação de mulheres e meninas. A meta prevê que com essa ação, além de garantir direitos humanos básicos, vai acelerar o desenvolvimento sustentável, visto que mulheres têm capacidade multiplicadora no que diz respeito ao crescimento econômico e desenvolvimento social. Ainda temos muito o que conversar sobre divisão de tarefas domésticas, por exemplo, visto que mulheres dedicam cerca de 21 horas semanais para cuidar, arrumar, lavar, passar, cozinhar, etc., contra 11 horas dos homens. Os dados são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Para citar mais um exemplo, quero falar da remuneração no mercado de trabalho. Mulheres recebem 77,7% do salário de um homem com a mesma instrução. Você acha justo? Para algumas pessoas pode parecer óbvio que lutar contra isso é necessário. Mas para muitas, a estrutura sempre foi assim e não vale a pena lutar, porque nunca vai deixar de ser. Por isso, acredito que temos força na união, no compartilhamento de histórias boas, ruins, de superação ou de coragem. Quero finalizar essa nossa conversa com um apelo: se puder, converse com as mulheres que estão próximas a você sobre isso. Pergunte para as mais velhas como era na época delas e aponte o que mudou. Anote o que não mudou e vamos juntas para a luta. Um pedaço de cada vez é possível. Por fim, sabemos que a política é uma plataforma essencial! Por meio dela, conseguimos mais leis, mais incentivos para causas que visam igualdade não só entre gêneros, mas entre raça e classe também. Conversemos mais sobre isso.

O voto é a nossa “arma” para mudar as coisas

Há não muito tempo atrás, pessoas como eu, seja pela raça, classe ou gênero, não podiam votar. Atualmente, o Brasil é a quarta maior democracia do mundo e isso significa que todos os cidadãos são detentores de poderes políticos, assim como direitos e deveres, previstos na Constituição. Em novembro do ano passado, quando ocorreram as eleições municipais para escolher prefeitos, vice-prefeitos e vereadores, o número de pessoas que podiam votar chegou a quase 148 milhões. Dá para imaginar essa potência espalhada por 5.568 cidades? No fim do texto eu mostro para você os resultados desse pleito que foi um grande avanço, na minha opinião. No ano que vem, teremos mais uma oportunidade de aproveitar o nosso mundialmente reconhecido sistema eleitoral para mudar cenários que nos incomodam. E pode confiar: segundo o Tribunal Superior Eleitoral, nosso sistema possui mecanismos que garantem a segurança e a liberdade do voto. Ele já foi utilizado com sucesso em 12 eleições sem que fosse comprovada fraude, ao contrário do observado em votação com cédulas de papel. Voltando um pouco no tempo O Brasil passou pelas colônias, em 1500, pelo Império, em meados de 1800, pelo Estado Novo, em 1900 e, no mesmo século, pela ditadura militar, em 1964. Finalmente, após esses períodos não muito inclusivos, ingressamos no sistema que temos hoje, a democracia, que estimula o voto a partir de 16 anos sem distinção de raça, gênero ou classe. Para estarmos aqui, muita raiva foi convertida em ação! Imagina que para uma pessoa poder ser política, em 1824, ela precisava ser o que eles chamavam de ‘homem bom’. Essa figura, além de ter compromisso com a preservação dos interesses do império, precisava provar ser distinta atendendo aos seguintes requisitos: ter mais que 25 anos, ser católico, casado, proprietário de terras e não ser considerado impuro, em outras palavras, não ter sangue de uma pessoa negra ou indígena no corpo. Dando um pulo, em 1932 (antes tarde do que nunca!), o direito ao voto feminino foi sancionado após um longo histórico de reivindicações, mas a porcentagem de mulheres na política, entre outros grupos, continuou baixa. Infelizmente, tivemos um período também obscuro a partir de 1964, onde atos institucionais promovidos pela ditadura militar cancelaram eleições, cassaram mandatos e partidos políticos e permitiu que militares prendessem, torturassem e até matassem opositores. Graças à muita organização e estratégia, em 1983 o movimento político e popular Diretas Já passou a lutar pela volta das eleições diretas ao cargo de presidente do país. Tal mobilização culminou na Constituição Federal de 1988, que é a lei fundamental e suprema do Brasil. Para fechar nossa breve retrospectiva, em 1997, o nosso já citado TSE, visando maior participação de mulheres na política institucional, precisou estabelecer a seguinte regra no artigo terceiro da Lei das Eleições: “Do número de vagas resultante das regras previstas neste artigo, cada partido ou coligação preencherá o mínimo de 30% (trinta por cento) e o máximo de 70% (setenta por cento) para candidaturas de cada sexo.” Já percebeu a luta para manter privilégios? Olhar muito brevemente para tudo isso te faz lembrar de algo? Mesmo que não dito ou escrito, muitas dessas estruturas continuam. Elites agrárias, por exemplo, não queriam que a escravidão acabasse. Seus filhos distintos e formados nas universidades internacionais, voltaram para o Brasil para lutar pela concentração de terras e pelo patriarcado. Entender um pouco dessa história nos deixa mais conscientes para a luta de mulheres, pessoas negras, LGBTQIA+, PCDs, indígenas, entre outros grupos, para conseguirem mais direitos, espaço, educação e alimentação. Aproveitar a chance de termos o direito ao voto para escolher representantes realmente preocupados com a mudança e inclusão é muito importante. Veja a seguir o porquê. Mudanças palpáveis Nas eleições de 2020, pela primeira vez na história do Brasil, o número de candidatos negros (pretos e pardos, segundo o IBGE) chegou a 276 mil candidatos, ou seja, 49,95% do total de concorrentes. Já as candidaturas femininas chegaram a 184 mil, o que representa 33,4% do total. Entre os indígenas, 2.100 pessoas se candidataram, representando 0,4% do total, um aumento de 25% em relação à última eleição municipal. Veja mais aqui. Estou feliz por ver onde chegamos e extremamente esperançosa com mais mudanças em 2022, e você? Já escrevi bastante sobre política por aqui, mas quero indicar um sobre o voto útil e o outro sobre machismo, misoginia e sexismo, cujo comentário de um homem defendendo que mulheres deveriam ficar em casa cuidando dos filhos só me prova como estou no caminho certo. Há espaço para mudanças, vamos juntos e com consciência!

A conquista do voto feminino foi apenas um começo!

dia do voto feminino

No dia 24 de fevereiro celebramos o dia da conquista do voto feminino no Brasil. A data, que é de extrema importância para a democracia do país, é também uma oportunidade de reflexão sobre os impactos que a ambição exerce sobre as nossas vidas e na vida de outras pessoas. No artigo de hoje, eu quero convidar você a olhar para a história das mulheres na política sob uma perspectiva diferente da habitual, que se encontra nos livros e artigos disponíveis na internet. Vou falar um pouco sobre as mulheres que foram decisivas para a conquista do voto feminino no Brasil, mas vou abordar também a semente de ambição que elas deixaram e as conquistas que delas germinaram. Por fim, vou falar sobre o nosso papel na participação política do país e como a nossa ambição por uma sociedade mais equânime é fundamental para vivermos em um mundo melhor. Boa leitura! Mulheres que foram decisivas para a conquista do voto feminino no Brasil Não dá para falar sobre a conquista do voto feminino no Brasil sem citar alguns nomes que foram determinantes nesse cenário. Como temos bastantes materiais sobre o tema disponíveis, não vou me delongar nesse tópico, mas se você quiser se aprofundar na história do voto feminino, sugiro que leia o e-book O voto feminino no Brasil, escrito pela Teresa Marques e publicado pela Câmara dos Deputados. Aqui, vou abordar 3 mulheres que se destacaram na época da conquista com seus feitos e os efeitos que eles causaram. Acompanhe. Bertha Lutz Bertha Lutz foi zoóloga, formou-se na França e esse período vivido por lá plantou nela a semente de tudo pelo o que ela passaria a lutar ao regressar ao Brasil. Mesmo exercendo sua profissão em órgão público, ela fez questão de atuar em prol do feminismo e fundou, em 1919, a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Ela foi a principal voz das mulheres na luta pelo direito ao voto, desde as ações cotidianas no levantamento de abaixo-assinados e diálogo constante com parlamentares, até a participação em grandes eventos internacionais, representando o Brasil. Seu último grande feito foi aos 81 anos, em 1975, quando representou o Brasil na Conferência Mundial sobre o Ano Internacional da Mulher e foi delegada titular do Brasil na Comissão Interamericana de Mulheres. Leolinda Daltro Fundadora do primeiro partido feminino do Brasil, a indigenista Leonilda Daltro era filha de mãe índia e pai português. Após separar-se do seu primeiro marido, tornou-se professora e começou a defender a educação laica da população indígena. Com o passar do tempo, observando as dificuldades que enfrentava em seu projeto educacional, ela percebeu que era preciso emancipar as mulheres para que houvesse mudanças significativas na sociedade. Em 1910, ano em que as mulheres não podiam votar ou serem votadas, ela fundou o Partido Republicano Feminino, pelo qual organizava passeatas, requeria participação em assembleias e pressionava os políticos da época pelos direitos das mulheres. A conquista do direito ao voto veio apenas em 1932, 3 anos antes de sua morte. Alzira Soriano Em 1927, o governador do estado do Rio Grande do Norte sancionou uma lei estadual que permitia o voto feminino naquele estado. No mesmo ano, Alzira Soriano se tornou a primeira eleitora da América Latina e, no ano seguinte, se lançou candidata à prefeitura de sua cidade, Lages, e ganhou a cadeira com uma votação bastante expressiva, de 60%. O feito foi tão revolucionário que ganhou uma manchete no The New York Times.  Em sua gestão ela focou em educação e obras estruturais, mas seu mandato não durou muito tempo. Com o golpe de 1930, sua prefeitura foi destituída. Getúlio Vargas a convidou a voltar a assumir, mas ela não estava de acordo com as suas diretrizes. A semente da ambição por igualdade deixada por essas mulheres Ao olhar para essas histórias, fica visível que essas 3 mulheres compartilham de algo que vai além do feminismo em si. Todas elas foram ambiciosas, todas elas almejaram conquistar algo que proporcionaria uma vida melhor para elas e para toda a sociedade.  Notem, também, que nenhuma delas tinha uma vida ruim ou sofrida. Eram todas de classe média, com uma situação financeira confortável. Elas não estavam insatisfeitas com aquilo que já possuíam, mas isso não lhes tiravam o desejo de ter um futuro diferente. A conquista do voto foi apenas o primeiro passo. A partir dele, muitas outras mulheres realizaram feitos políticos que nos beneficiam até hoje, como as cotas de mulheres nas candidaturas e o percentual de verba destinada às candidatas mulheres nos partidos. Se hoje lutamos por mais mulheres na política e por melhores políticas públicas é porque elas foram em busca daquilo que acreditavam e plantaram em nós essa mesma ambição.   Nosso papel atual na participação política do país Como sabem, sou uma mulher politicamente ativa e acredito que precisamos estar mais próximos desse ambiente de discussão para termos uma sociedade mais justa. Não dá para nos conformarmos com as conquistas feministas do hoje. Somos agradecidas e felizes com os direitos que temos, sabemos e valorizamos a luta das nossas predecessoras e é justamente por isso que devemos seguir adiante. Eu tenho uma máxima de que mulher deve votar sempre em mulher. Somos a maioria da população e, votando em nós mesmas, teremos mais representatividade feminina. Ao meu ver, o nosso papel como cidadãs é o de seguir uma luta que data de mais de um século por mais igualdade de direitos entre gêneros. Vou finalizar este texto com um recado muito importante. Por mais que tenham lhe dito a vida toda que você não pode fazer algo porque não é coisa de mulher, ou porque você deve ser grata à vida que tem, lembre-se dessas mulheres que não precisavam lutar pela conquista do voto feminino, mas elas quiseram. Se você quer algo, lute por isso. Lute por suas conquistas e acredite na sua capacidade de mudar a sua vida e o mundo.